A série de TV baseada em Baldur’s Gate 3, que será lançada pela HBO, alimenta a expectativa de expandir um universo riquíssimo. No entanto, assumir a função de continuação direta do jogo representa um desafio quase impraticável.
Isso porque, ao final de Baldur’s Gate 3, cada jogador vivencia desfechos drásticos e pessoais, moldados por incontáveis decisões. Fazer dessa diversidade uma narrativa única e canônica é, no mínimo, uma missão controversa.
O que você vai ler neste artigo
Complexidade narrativa de Baldur’s Gate 3
Baldur’s Gate 3 é mais que um jogo com múltiplos finais. Ele se constrói a partir de escolhas constantes feitas ao longo de cerca de 100 horas de jogo. Desde decisões sobre lealdades e alianças, até dilemas morais que determinam o rumo da história, o jogo acumula cerca de 17 mil variações na cena final.
Isso torna implausível estabelecer um único “caminho correto”. Personagens importantes como Gale, Shadowheart, Minthara ou Minsc podem ser aliados próximos ou nem sequer existir na jornada de um jogador, dependendo do rumo escolhido. Consequentemente, qualquer tentativa de transformar um desses arcos em cânone pode alienar boa parte da audiência, que não verá sua história reconhecida.
A escolha de canonizar um enredo
Com a confirmação de que a série será uma continuação direta da narrativa do jogo, uma questão espinhosa surge: qual das possibilidades será considerada a “verdadeira”? O showrunner Craig Mazin terá, inevitavelmente, que determinar quais finais e caminhos são válidos na série.
Esse processo de “canonização” contrasta fortemente com outros exemplos de adaptação. Fallout, por exemplo, ambientou sua história décadas após eventos dos jogos, evitando ancorar a narrativa em um final específico. Com isso, preservou o espírito flexível do RPG ao mesmo tempo em que ofereceu liberdade criativa ao roteiro.
Baldur’s Gate 3, por sua vez, será seguido imediatamente pela série da HBO, o que remove essa zona de amortecimento. Ao agir dessa forma, o projeto abre mão da riqueza representativa da obra original e impõe uma versão única a um universo que prospera na multiplicidade.
Expectativas e riscos de adaptação
A HBO tem um histórico positivo com adaptações. Séries como The Last of Us mostraram que é possível transformar experiências interativas em roteiros envolventes. Ainda assim, há uma diferença fundamental: The Last of Us tem uma narrativa linear. Baldur’s Gate 3, por outro lado, é uma teia de possibilidades baseada em centenas de decisões acumulativas.
O risco, portanto, está em transformar uma experiência profundamente pessoal em uma história genérica direcionada para o público de massa. Isso pode resultar em:
- Desconexão emocional com os fãs mais engajados.
- Redução da profundidade dos personagens.
- Frustração com escolhas não representadas ou ignoradas.
- Perda da autenticidade que tornou o jogo um sucesso.
Para espectadores que nunca jogaram BG3, a série pode funcionar como uma entrada acessível ao universo. Porém, para quem construiu laços emocionais com seus personagens, escolhas e finais, a experiência dificilmente será completa.
A solução que Fallout mostrou
Fallout encontrou uma forma inteligente de evitar este impasse. Ambientou a série após os eventos de Fallout: New Vegas, mas em um ponto do tempo suficientemente distante e repleto de incertezas. Assim, manteve todas as possibilidades abertas de forma indireta.
Esse modelo permite:
- Honrar múltiplos finais simultaneamente.
- Criar novos conflitos sem contradizer eventos passados.
- Ampliar o universo sem prender-se a um caminho único.
Larian Studios, criadora de BG3, também adotou esse princípio entre as continuações da própria franquia, colocando um século entre os eventos de BG2 e BG3. Já a série da HBO não segue essa lógica, optando por prender-se diretamente ao desfecho imediato do terceiro jogo, restringindo sua liberdade criativa de forma desnecessária.
Uma oportunidade desperdiçada?
A decisão de posicionar a trama como uma continuação direta levanta dúvidas quanto à viabilidade da adaptação. Muitos fãs gostariam de ver Baldur’s Gate na televisão, mas não necessariamente a continuação da história do seu próprio personagem contando por outra pessoa.
Seria possível criar uma série em Baldur’s Gate sem ser uma continuação direta?Sem dúvida. O mundo esquecido de Faerûn é vasto, repleto de histórias paralelas, culturas místicas e tramas políticas que poderiam ser exploradas sem abalar o legado construído pelos jogadores.
Uma adaptação mais eficaz e respeitosa poderia:
- Apresentar uma história original dentro do mesmo universo.
- Incluir referências ou participações pontuais dos heróis do jogo.
- Evitar contradições com experiências personalizadas dos jogadores.
Ao insistir em uma narrativa direta, porém, a série se arrisca a alienar a base de fãs que ajudou a consagrar BG3 como um marco do gênero RPG.
Conclusão inevitável
A promessa de um grande projeto televisivo baseado em Baldur’s Gate é empolgante, mas o caminho adotado parece ignorar os próprios pilares do jogo. Ao forçar uma sequência única em uma experiência intrinsecamente múltipla, a HBO assume uma aposta arriscada.
Se não houver a sensibilidade de adaptar sem apagar as centenas de histórias que cada jogador viveu, a série corre o risco de falhar com grande parte da sua audiência antes mesmo do primeiro episódio ir ao ar.
Leia também:
- 2ª temporada de Gen V ganha data de estreia do spin off de The Boys
- A emocionante jornada de Cassian Andor em Star Wars chega ao fim
- Adolescência destruída: série de sucesso da Netflix baseada em fatos reais
- Amizade de Hayden Christensen e Rosario Dawson começou antes de Star Wars
- Análise de Black Mirror temporada 7
- Andor faz referência a clássico cult de George Lucas na 2ª temporada
- Andor temporada 2: início marcado por tensão crescente
- Animador critica duramente o som de One Piece