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Criadores de Tomb Raider rejeitaram redesign “manga” de Lara Croft

Durante o desenvolvimento do primeiro Tomb Raider, os criadores enfrentaram pressões inesperadas vindas do Japão. A publisher local, Victor Interactive Software, queria ajustes na protagonista para atrair melhor o público japonês.

Essas solicitações incluíam alterações visuais na aparência de Lara Croft, como olhos maiores e cabeça desproporcional, remetendo ao estilo mangá. Contudo, o time de criação resistiu.

Pressão do mercado japonês

Um dos co-criadores e programador do Tomb Raider original, Paul Douglas, revelou que o pedido do redesign chegou “bem tarde” no processo de desenvolvimento. Por meio de fax, a empresa japonesa enviou exemplos de como imaginavam uma Lara Croft mais “atrativa” aos gamers do Japão. A principal ideia era reformular características do rosto e da silhueta à estética popular dos animes e mangás.

Apesar disso, o designer Toby Gard, também co-criador do jogo, se manteve firme em preservar o visual original da personagem. Assim, em vez de aplicar alterações nos modelos 3D usados no jogo, a equipe fez uma concessão visual limitada: adaptou apenas ilustrações e artes promocionais incluídas em manuais e guias distribuídos no Japão.

Mudanças vetadas protegeram identidade da personagem

De acordo com Douglas, os japoneses acreditavam que bastaria alterar os modelos faciais e corporais de Lara em poucos dias — o que era inviável levando em conta as limitações tecnológicas da época. O jogo de 1996 foi desenvolvido com técnicas de modelagem ainda incipientes e manipular os modelos daquele estágio significaria arriscar comprometer o lançamento.

O produtor ainda detalhou que a tentativa de mudança foi sendo gradualmente reduzida conforme o estúdio resistia:

  • Primeiramente, foi pedido que todas as cenas fossem refatoradas;
  • Depois, restringiram a mudança apenas ao modelo da protagonista;
  • Em seguida, exigiram só a troca da cabeça de Lara;
  • No fim, ficaram apenas com o redesign aplicado nos materiais auxiliares.

Essa decisão de preservar a essência original da personagem contribuiu para que Lara Croft fosse reconhecida mundialmente como um ícone dos videogames ocidentais dos anos 90, sem perder sua identidade estilística própria frente a um mercado saturado por personagens de estética oriental.

Expansão da franquia e novos rumos

O legado de Lara continua em constante evolução. Atualmente, a franquia está se expandindo com novos jogos e projetos transmídia. Dois títulos já foram anunciados: “Tomb Raider: Legacy of Atlantis”, previsto para 2026, e “Tomb Raider: Catalyst”, com lançamento programado para 2027. Ambos prometem aprofundar os elementos mitológicos e explorar novas dimensões da arqueóloga.

Além dos games, uma série live-action está em desenvolvimento e será lançada pelo Prime Video. A atriz Sophie Turner, conhecida por sua atuação em “Game of Thrones”, assumirá o papel da protagonista. A produção faz parte de uma estratégia mais ampla da Amazon de unificar diferentes mídias (jogos e TV) em um único universo narrativo.

As mudanças também chegaram ao elenco de voz. Alix Wilton Regan será a nova dubladora de Lara, substituindo Camilla Luddington, que deu vida à versão da personagem na trilogia Survivor. A transição marca uma nova fase para a franquia, mas não sem gerar discussões entre fãs sobre possíveis retcons e reformulações do cânone.

Preservação artística versus mercado

O caso envolvendo Lara Croft revela um dilema recorrente na indústria: até que ponto criadores devem ceder à pressão de mercados regionais sem comprometer a autenticidade de sua obra?

A postura da Core Design em não mudar radicalmente a personagem mostra o valor da identidade artística frente aos anseios por comercialização. O resultado foi a consolidação de um dos maiores ícones femininos dos videogames, cuja imagem inspirou jogos, filmes e colecionáveis ao longo de décadas.

Mesmo com as diferenças culturais e de mercado, o sucesso de Tomb Raider provou que o carisma de Lara transcendia barreiras estéticas.